November 12, 2010 - Posted by tbolivar - 2 Comments
De que ‘raça’ é o Nordeste?
Estes dias, ao comentar com uma amiga norte-americana que, aqui em nossas terras, uma estudante estava sofrendo ameaça de processo por conta de declarações ditas “racistas”, essa amiga – que dentro do universo político do Tio Sam se posiciona bastante à esquerda, não sendo nada conservadora – surpreendeu-se: “Processada por dizer algo?! Vocês não têm liberdade de expressão no Brasil?”. Argumentei que uma das frases da estudante poderia ser caracterizada como uma incitação a assassinatos (“mate um nordestino afogado”), e que era com base nisso que o processo seria movido. Pelo menos é no que quero acreditar até agora, mas a leitura de algumas das declarações do Dr. Henrique Mariano, na Folha de S. Paulo (coluna Poder, 4/11/2010), provocou profundo abalo nessa crença.
Henrique Mariano é o presidente da OAB de Pernambuco, entidade que quer, segundo a reportagem, “abrir uma ação penal contra a estudante, por supostos crimes de racismo[!] e incitação à prática de homicídio”. Embora uma interpretação literal não deixe dúvidas quanto à “incitação” (e, mesmo assim, cuidemo-nos todos nós quando esbravejamos que “motoboys têm que morrer e ir para o inferno”, ou brincamos que os torcedores do time adversário “deveriam bater as botas”), é mais fácil achar chifre em cabeça de cavalo que encontrar base para a acusação de “racismo”… A não ser, é claro, que o termo ‘raça’ tenha passado por algumas modificações especiais dentro do fabuloso universo jurídico de nosso país.
Vejamos: de que ‘raça’ é o Nordeste? Qual ‘etnia’ a jovem estudante teria “ofendido”? Ou se estabelece, em documento legal, uma ‘etnia nordestina’ (que dê um jeito de englobar em um só monólito todos os nordestinos de diversas ascendências), ou, por favor, corta-se esse absurdo. Seja como for, é profundamente desanimador pensar em simplesmente começar um debate com quem afirma que “segregar regiões também é racismo”!
Pior ainda é o entendimento do que seja uma ‘ofensa’. A criminalização de uma ofensa, no sentido de declaração verbal, deveria ser algo conduzido com extremo, extremíssimo cuidado. Do jeito que parece estar sendo colocado, fica a impressão de que criticar certos grupos seria proibido. Em um país verdadeiramente livre, se alguém não gosta de uma crítica, e se acha absurda e execrável uma opinião, tem todo o direito de rebater essa critica e produzir uma contra-opinião, demonstrando, talvez, que a verdade está do seu lado. Processar criminalmente alguém que disse que este ou aquele grupo é composto por ‘vagabundos’ não resolve absolutamente nada: estabelece censura e até pode produzir a impressão de que os ‘ofendidos’ são incapazes de demonstrar factualmente o quão errado está quem os ofendeu. Já vivemos, no Brasil, contextos nos quais se cerceava a liberdade de expressão, e não é difícil perceber que a criação de grupos ‘intocáveis’ (por exemplo, os governos militares) tem consequências nefastas.
Além disso, parece haver sido criada uma cartilha de quem ‘pode’ ofender quem. Um sulista é menos passível de ser ofendido, enquanto ‘grupo regional’, que um nortista? Há leis especiais dando mais direitos a grupos específicos? O ‘Blog da Dilma’, que na época das eleições se colocava como um dos principais no apoio à candidatura de Dilma Rousseff, colocou no ar, por breves minutos no dia 19 de outubro, um texto encabeçado pela declaração “Zé Pedágio pensa que os nordestinos são ‘bestas’ como os paulistas” (ver foto abaixo). Ataques assim, lançados no sentido sul, não são, de maneira alguma, menos frequentes que os lançados no sentido inverso; jamais, porém, causam qualquer barulho. Por que os dois pesos e as duas medidas? Imaginem-se os gritos histéricos se, na frase, os termos “nordestinos” e “paulistas” trocassem de lugar… Neste país que parece estar criminalizando as ofensas verbais, alguém se animaria a investigar o caso? A OAB de Pernambuco, talvez?

Segundo a reportagem da Folha, o Dr. Henrique Mariano disse que “outras pessoas que também ofenderam os nordestinos poderão ser enquadradas em novas ações penais”, dando a impressão de que uma vigilância de ‘Grande Irmão’ será posta em prática, forçando, quem sabe, a criação de códigos para que se possa falar sobre nordestinos sem medo – afinal, nunca se sabe ao certo o que poderá “ofender”. Talvez nós todos – paulistas, nordestinos ou qualquer que seja a ‘raça’ – também devêssemos ficar de olho nessas ações, para ver até que ponto a liberdade de dizer (seja algo bom, seja algo ruim) está sendo destruída.
October 9, 2010 - Posted by tbolivar - 1 Comment
Um conto que consegui terminar. Isso por si só já é milagroso; e eis que o escrevi em apenas uma tarde e uma noite!
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Em busca da existência do Acre
para Mariano Sánchez
The ordinary man, the man of the street, the farm boy who is so predominatingly a man of action, is quite right when he smiles indulgently at the naïveté and lack of real understanding of the world shown by the scholar.
PAUL RADIN
Era um dia de princípios de primavera, úmido e de vento fresco, tendendo para o frio; um desses dias que são unanimemente lindos: apesar de o céu estar mais fechado que aberto, a vida explodia em cada canto, e a Natureza se mostrava com toda a força possível dentro das limitações de um ambiente urbano. Um fim-de-semana prolongado, desses de três dias, estava apenas começando, e foi com uma incrível leveza na alma que sentei-me confortavelmente sobre o banco de balanço na varanda do quintal, vendo como a luz do sol se filtrava através do verde novo das folhas das amoreiras, e ouvindo como dezenas de sabiás tocavam a sinfonia de outubro.
Naquela tarde de ócio, eu teria uma visita especial: Jonas Müller, meu grande amigo e ex-colega de trabalho, que havia partido para um Estado vizinho, para lecionar em outra universidade. Ele havia chegado no dia anterior, para resolver assuntos de papeladas, e iria embora naquele sábado, não sem antes fazer-me uma visita de duas ou três horas, a caminho do aeroporto. Como eu sabia que ele estava no começo de um namoro, insisti para que viesse com a namorada (que eu ainda não conhecia) e passasse com ela o feriado inteiro em minha casa; mas (ele explicou), como as exigências da fase inicial do novo emprego lhe tomavam até mesmo os feriados, ele não poderia ainda dar-se o luxo de simplesmente passear: em casa lhe esperavam as leituras, os cursos de extensão a serem desenvolvidos, e muitas outras coisas. Fosse como fosse, ele viria naquela tarde, e mesmo quinze minutos de conversa com aquele amigo conseguiam extremamente divertidos e enriquecedores. Após ter almoçado, esperei umas duas horas até que ele tocasse a campainha para só então ferver a água para o mate.
Nossa primeira hora tratou das novidades de cada um (fazia uns três meses desde a última vez que nos víramos, e mensagens pela internet jamais conseguiam superar a conversa cara-a-cara): o emprego (as mesmices do meu, e os desafios estimulantes do seu), as mulheres (minha má fase, e sua sorte de haver encontrado um amor com tanta serendipidade), etc. Em meio a esses temas e a nossas piadas sarcásticas de sempre, enveredamos pela literatura e pelo realismo fantástico de Borges e de Bioy Casares, e foi aí que se abriu a avenida para o assunto específico que iria ocupar meus pensamentos durante os próximos dias.
– Pois é, – lembro-me dele falando, enquanto eu despejava água para o meu turno do mate – quanto daquilo que sabemos a respeito do mundo é realmente conhecimento em primeira mão? Talvez noventa e nove por cento daquilo que a gente diz conhecer sejam, na verdade, conhecimento de ‘ouvir dizer’. Eu sou capaz de te contar em detalhes como era o dia-a-dia de um senhor feudal na Inglaterra do século XIII, assim como eu sei que tu é capaz de desenhar, de cor, o mapa desse país, com detalhes de relevo, hidrografia, e nem sei mais o quê; mas, quem de nós já foi a essa tal de Inglaterra? Nós sabemos porque lemos as palavras de outros, que por sua vez estão repetindo outros; vimos fotos, conhecemos pessoas que estiveram lá, ou que são de lá… Mas, já pensou se é tudo uma conspiração e somos dois tontos crédulos, estudando as invenções de alguém?
Ele riu, e eu acrescentei:
– É, já pensou se os Beatles nunca existiram de verdade? Quanto à identidade do Paul atual, pelo menos, há dúvidas.
Rimos ainda mais. Jonas começou a falar sobre a percepção da realidade segundo certas escolas filosóficas; que mesmo o conhecimento em primeira mão poderia ser algo ilusório, algo que nada dizia a respeito do real em si, sendo uma mera ativação de nossos sentidos – subjetividade total. A menção anterior à geografia, no entanto, havia capturado meus pensamentos de forma irremediável, e foi então, com a imagem de um mapa à mente, que me lembrei, interrompendo meu amigo:
– O Acre!… Desculpa, mas tu lembra da história do Acre não existir, e tal?
Ele não estava tão familiarizado com o tema quanto eu, mas após alguns segundos de reflexão lembrou-se de já haver escutado alguma vez a piada de que o Acre ‘não existiria’. Na internet, sobretudo, é que a coisa circulava: ninguém conhecia uma só pessoa que fosse de lá; ninguém jamais havia ido para lá, e assim por diante. O fato de o Estado situar-se longe de tudo, despovoado no meio dos matos da Amazônia, e até havia pouco em um fuso-horário exclusivo, era sem dúvida o que alimentava essas piadas.
– Perfeito, achamos nossa ‘terra inventada’! – comemorou Jonas, rindo – O Acre!
– Aposto que se eu quiser viajar para o Acre agora mesmo, por algum motivo isso não vai ser possível.
– Sim, tu liga pra companhia aérea ou entra no site deles pra fazer uma solicitação; deixa teu endereço, e cinco minutos depois tem um carro preto com dois sujeitos com cara de robô estacionando aí em frente!
Passamos alguns minutos divertindo-nos com hipóteses malucas como essa, e depois começamos a falar sobre as férias de verão e as possibilidades de uma temporada na praia; mas eu teria que arrumar uma namorada firme até o fim do ano, para que pudéssemos viajar classicamente em dois casais.
Estava anoitecendo quando Jonas chamou um táxi para o aeroporto, e nos despedimos lamentando, mais uma vez, os meses que passariam até que pudéssemos conversar novamente.
Quando fui deitar-me, já tarde da noite, a visão do livro introdutório de Filosofia que repousava sobre minha mesinha de cabeceira, e que era um dos três que, pouco a pouco, eu estava lendo ao mesmo tempo, trouxe-me à memória os assuntos relacionados que eu discutira com meu amigo durante a tarde, e logo o Acre invadiu meus pensamentos mais uma vez.
Que eu me lembrasse, eu não conhecia, de fato, qualquer pessoa que houvesse nascido ali; e sequer havia escutado, alguma vez, que alguém tivesse ido para lá. Lembrei-me de uma quase-ida: Ana Rossi, minha colega de trabalho, certa vez se inscrevera para um concurso da Universidade Federal do Acre… Ou havia sido um da Federal de Roraima? Eu não tinha certeza absoluta, mas sabia que, por algum motivo, ela havia desistido de ir na última hora.
Eu sabia que o Acre havia sido comprado da Bolívia, em algum momento da década de 1860, se me lembrava bem. O que mais? Rio Branco era a capital. Ah, e claro: Chico Mendes! Como esquecer-se de Chico Mendes e da luta dos seringueiros? Ao Acre às vezes chegavam massas de ar frio continental – a tal ‘friagem’, que fazia os termômetros descerem aos 12°C em plena Amazônia; e no Acre viviam os Ashaninka, tribo que, tanto pelo nome como pelo fato de se vestirem com tecidos, deviam ter mantido certo intercâmbio com os Incas dos Andes, ali tão próximos. Isso era tudo o que eu sabia sobre o Acre.
“Tudo de ‘ouvir-dizer’, veja só!”, escutei a voz de Jonas e sua risada em minha mente. De fato, assim o era. Chico Mendes poderia ser uma invenção de um romancista, e os Ashaninka poderiam até existir, mas em outro território, jamais no inexistente Acre. De qualquer forma, qual seria a finalidade de tão elaborado engodo?
Assustei-me comigo mesmo quando me surpreendi à margem de dar algum crédito às piadas sobre a inexistência do Estado. Ri e olhei para o relógio: quase uma da manhã. Como não sentia sono, puxei o lap-top para a cama, acomodei-me e disse para mim mesmo que a busca que eu estava a ponto de empreender, sobre o Acre, teria a finalidade única de aumentar meus conhecimentos sobre o lugar.
‘Acre’. Uma página de enciclopédia, que começava classificando-o como o vigésimo-sétimo Estado brasileiro; notícias sobre um deputado ou deputada local; a Universidade Federal; um mapa, e finalmente uma página oficial, com algumas fotos. Decidi entrar ali primeiro: havia uma bela vista noturna da capital Rio Branco, com uma ponte iluminada cruzando um largo rio.
Naquela noite, viajei virtualmente por fotografias de agências de turismo, por notícias de um jornal local, e, finalmente, por currículos de cursos e páginas de professores da universidade. Foi nesse último ambiente que topei com uma proposta de estudo geológico “no oeste do Estado”, e, sendo precisamente aquela a minha área de estudos no doutorado, foi com interesse verdadeiro que escrevi uma mensagem ao professor responsável, cujo endereço aparecia na reportagem, logo abaixo de seu nome. Fui dormir pensando que, afinal, toda a piada sobre o Acre tivesse servido para que eu fizesse um novo e valioso contato acadêmico.
* * *
O dia seguinte amanheceu ainda mais lindo que o anterior. O sol brilhava agora em um céu totalmente azul, e, apesar de um frio considerável pela manhã, o renascimento da estação estava realmente em sua plenitude.
Eu não apenas vivia sozinho, como também andava bastante solitário em geral, naqueles dias. O fato não me incomodava muito, mas, para que aquele não fosse um domingo morto e sem aventuras, cumpri à tarde a promessa que me havia feito pela manhã: fazer uma longa caminhada até as margens do rio, atravessando as praças mais vivas da cidade durante o trajeto. Chegando ao rio, andei ainda mais ao longo de seus calçadões e areais, e, após ter enchido os olhos no percurso de, seguramente, uns quinze quilômetros, voltei para a casa autorizado a ficar todo o entardecer e noite na horizontal.
A primeira coisa que fiz, ao sair da ducha, foi jantar; a segunda, ligar o computador e ver minhas mensagens. Ali, entre umas cinco ou seis propagandas e bênçãos de anjos, havia uma mensagem de erro.
“Falha no envio – destinatário inexistente”. Abaixo, a cópia da mensagem: as dez linhas que eu havia escrito para o colega geólogo da Federal do Acre. Sorri e balancei a cabeça: ora essa, justo aquela mensagem tinha que ter voltado? Lembrei-me então de que aqueles endereços institucionais raramente funcionam: não são acessados com frequência, têm limites ínfimos de armazenamento, e talvez o servidor não funcionasse em fins-de-semana. Sim, esse era, certamente, o problema. Copiei a mensagem e enviei-a, desta vez, para o e-mail geral do departamento, para a atenção do professor específico. Fui esquentar água para o mate, e quando voltei havia aparecido, no topo da lista de minha caixa-postal, uma nova mensagem de erro.
“Bom, a universidade talvez não exista mesmo”, pensei, e ri sozinho. Lembrei-me de Ana Rossi, a colega “que talvez tivesse se inscrito em um dos concursos dali”. Peguei meu celular mas imediatamente me detive, falando em voz alta: “Tu tá doido, é?”. O que eu estava fazendo, afinal? Duvidando da existência de um Estado, e ao mesmo tempo (e mil vezes pior) dando crédito a alguma teoria surreal de conspiração absurda? De qualquer forma, busquei o telefone de Ana, e, quando ele apareceu, meu dedão, talvez por moto próprio, acionou a chamada.
Minha relação com Ana era de bastante intimidade, embora ultimamente só nos encontrássemos no ambiente de trabalho. Mesmo assim, quando ela atendeu eu não soube ao certo o que dizer.
– Como vai? – comecei. – Aproveitando bem o feriadão?
Ela pareceu animada com a ligação, e começou a falar sobre os mais diversos assuntos. Achei que teria dificuldades em introduzir o tema que eu queria, mas então, aproveitando uma oportunidade, perguntei:
– Aquele concurso que tu ia prestar… Era pra onde mesmo? Maranhão? Amapá?
– Ah, era pro Acre – disse ela, um tanto laconicamente. O normal era que passasse a falar bastante sobre o assunto espontaneamente; mas, como isso não ocorreu, tive que pedir:
– Isso mesmo, o Acre. E, me conta, foi tudo normal, o processo de inscrição e tal? Por que tu desistiu mesmo?
Fui recebido por uns segundos de pausa. Ouvi uns gritos de criança do outro lado.
– Bah, esse guri eu não aguento mais! Viu, Igor? Larga isso aí já! Ah, não quer obedecer, é?
Ana era mãe solteira, e tinha que manejar o filho em casa, entre preparações de aulas, leituras e todo o serviço doméstico. Desculpou-se e pediu que eu ligasse mais tarde. Eu me desculpei e disse que depois, sim, nos falaríamos.
Mais uma vez me censurei, e pensei no papel ridículo que faria se comentasse com meus amigos sobre tais investigações. “Quer ver só?” disse para mim mesmo. Busquei ‘hospital’ e ‘rio branco’, e, tão logo cheguei a um número de telefone, fiz a ligação. Eu diria qualquer coisa: que queria informações sobre o paciente do quarto oito, e em seguida desligaria.
“Este número de telefone não existe”, disse a gravação. Tentei novamente, digitando um a um com extremo cuidado. O resultado foi o mesmo, e, com raiva (de mim mesmo), desliguei o computador e li três dezenas de páginas de um romance de Tabajara Ruas, até finalmente ceder ao sono.
* * *
Segunda-feira livre, e nada para fazer. No final da manhã começara a nublar, e já no início da tarde uma garoa fina, mas firme, começou a cair. Com a possibilidade de uma nova andança ao ar livre assim arruinada, pensei em outras opções. A maioria de meus amigos estava viajando, e Ana Rossi, que morava fora da cidade, na região metropolitana, estranhamente não estava mais atendendo o celular ou o residencial.
‘Patty’ – o nome apareceu entre meus contatos. Quem era essa? Lembrei-me afinal, e sorri: era a aeromoça com a qual eu havia flertado, durante um voo para Curitiba, há coisa de dois meses. Conversáramos bastante, dentro das grandes restrições do contexto, e eu me senti incrivelmente sortudo quando, ao descer do avião, ela estendeu a mão para apertar a minha, deixando um pedacinho de papel em minha palma fechada: um número de telefone local, e um “Me liga – Patty”. Por que não havia dado certo, afinal? Ah, sim: após duas tentativas barradas por um frio “estou muito ocupada hoje”, eu terminei desistindo. Talvez eu andasse mesmo muito intolerante e cético, como me diziam alguns: e se ela, de fato, estivera ocupada naqueles dias, e esperasse novas ligações minhas?
Naquela segunda-feira eu fiz uma nova tentativa, não exatamente porque se tratava dela, em si, mas porque, quem sabe, ali estaria alguém interessante para salvar um dia de tédio. Eis que ela se lembrava, sim, de minha pessoa; e, incrivelmente, estaria disposta a ver-me naquele mesmo dia, inclusive reclamando por eu não haver ligado com mais frequência.
– Tem uma coisa – ela disse. – Hoje teria que ser meio que logo, porque às cinco eu tenho que me apresentar pra um voo. A gente podia tomar um lanche juntos, se tu quiser.
Olhei para o relógio. Eram três e dez. Sabendo que ela não tinha carro, e que morava em um bairro um tanto afastado na Zona Sul, propus o encontro em um shopping próximo a sua área. Lá tomaríamos o lanche e depois, se ela aceitasse, eu a levaria ao aeroporto. Não, eu não me incomodaria nem um pouco em andar com ela uniformizada.
Saí de casa – para quê ocultá-lo? – radiante. Quando a vi, percebi que estava ainda mais linda do que eu me lembrava, e bastante simpática e receptiva. Se realmente gostava de mim, por que simplesmente esperava que eu entrasse em contato? Falamos sobre o voo em que nos encontramos, e da ousadia divertida de ambas as partes, fazendo algumas confissões. Eu já me imaginava espalhando protetor solar em suas costas, em alguma praia catarinense no verão, quando o breve encontro teve que se render ao relógio. Mas, enfim, ainda teríamos o tempo no carro.
Durante o trajeto, iniciei sem querer a conversa que me jogaria, mais uma vez, na armadilha:
-
- E pra onde tu tá indo agora?
- Pra Campinas.
Outro voo relativamente curto. Será que funcionava assim, poupar as comissárias ao máximo, evitando viagens demasiadamente longas, e regionalizando na medida do possível? Para onde ela já teria voado? Será que…
– Patty, tu já foi alguma vez pra Rio Branco?
Ela me encarou de forma divertida.
– Pra onde? Rio Branco?! Onde fica isso?
– É a capital do Acre – eu disse. Por pouco não deixei escapar um “dizem”.
– Não ajudou muito – ela riu. – Acre? É por ali perto da Bahia?
– É bem pro norte sim, mas do lado da Amazônia…
– Bom, eu nunca ouvi falar e a nossa companhia não voa pra lá, com certeza… Uma vez eu fui pra Manaus. Mas por quê?
Hesitei um pouco. Quando por fim falei, o que saiu foi:
– Ah, sei lá, um lugar novo dentro do país pra visitar… De repente… Dizem que é muito bonito.
Em vez de deixá-la no desembarque, fui para o estacionamento e ali deixei o carro, descendo com ela. Disse que, já que estava ali, iria aproveitar para dar uma olhada sobre a questão da ida a Rio Branco. Despedi-me dela no saguão, recebendo um beijo no rosto, perigosamente próximo dos lábios.
Eu estava muito feliz, e a questão da existência do Acre poderia ser amassada e jogada fora; mas, puxa vida, eu estava ali mesmo, onde poderia conversar cara-a-cara com alguém que saberia a respeito; que, talvez, até estivesse indo para o lugar!
No balcão da companhia que, eu sabia, deveria oferecer tal voo, havia fila. Saquei o celular, entrei no site da empresa e, enfim, selecionei minha cidade como o ponto de partida, e Rio Branco como o destino; ida naquele mesmo dia, volta para dali a três. Pronto, a simulação estava a um clique.
“Não há voos disponíveis para essas datas. Por favor, tente outra vez…”. A fila dissipou-se de repente, e avancei para o balcão.
– Pois não, senhor?
– Oi, boa tarde. Eu queria comprar uma passagem pra Rio Branco, no Acre… Tô tentando pelo site de vocês, mas não tá funcionando!
Eu poderia jurar que vi a outra atendente dirigir, por meio segundo, um olhar sorrateiro à mocinha que me atendia. Esta, por sua vez, me ofereceu olhos vazios por alguns momentos.
– O senhor pode tentar por telefone também – foi a resposta. Respirei fundo. Eu estaria realmente irritado, não houvesse sido o feliz encontro com Patty.
– Tá, olha: eu tentei e fiquei pendurado um tempão e ninguém me atendeu – menti. – Tô precisando viajar com urgência e a companhia tá meio que dificultando as coisas. Tu não pode ver isso pra mim aí?
– Um momento, por favor – rendeu-se ela, e começou a martelar seu teclado. – O senhor quer pra hoje?
– Se for possível. Se não, pode ser pra amanhã.
E, se não houvesse “para amanhã”, eu seguiria tentando, até o mês seguinte, se fosse o caso.
– Senhor, realmente pra hoje não temos voo disponível. Pra amanhã tem saindo deste aeroporto às sete e seis da manhã.
– Um horário mais tarde não tem?
– Não senhor, é o único voo do dia.
– Tudo bem. Quero esse voo então, e pra voltar pode ser o próximo que tiver, no dia seguinte ou no outro.
Enquanto eu acertava os detalhes de assentos e horário do voo de volta, a atendente que estava sentada ao lado levantou-se rapidamente, após ter terminado de atender uma senhora, e saiu do balcão lançando-me um olhar enigmático, avançando a passos rápidos pelo saguão, seus saltos ressoando ao longe.
– O total é de seis mil, seiscentos e sessenta e seis Reais e um centavo. Qual a forma de pagamento?
Sempre fui bastante controlado nas emoções, mas ali explodi em um acesso de riso. Olhos inexpressivos me encararam mais uma vez.
– Peraí, tu tá me cobrando quase sete mil por fazer essa viagem?! – eu não conseguia parar de rir. – Tu tem certeza que não colocou pra Tóquio em primeira classe?
– Esse é o valor pra essas condições, senhor. Se o senhor quiser eu posso verificar pra outras datas.
– Olha, eu aposto que se eu colocar pra Manaus, ou pra Porto Velho, que é ali do lado, eu vou pagar no máximo uns seiscentos pila, que é o que se costuma pagar nessa distância, e depois com mais uns trocados em alguma companhia regional eu chego até lá.
– O senhor quer que eu pesquise pra esses destinos? – perguntou então ela. Quando eu ia questionar o porquê de eu estar vendo agora a sombra de um sorriso triunfante em um rosto que até então tivera a expressão de um peixe morto, fui interrompido pelo retorno da outra atendente, que trazia às mãos um comunicador. Ela dirigiu-se imediatamente a mim:
– Senhor, desculpa. O senhor é que tá querendo ir pra Rio Branco, não é?
Atrás dela, a uma distância de uns dez metros, estava parado um ruivo vestindo uniforme da companhia. O sujeito, alto como uma porta e de expressão séria e fria, nos observava atentamente.
Não consegui produzir som através de minha boca aberta. Mesmo assim, ela prosseguiu:
– Nós pedimos desculpas para o senhor: eu fui confirmar, e todos os voos até pelo menos quarta, pra Rio Branco, estão cancelados. É por causa das queimadas na Amazônia. O aeroporto está fechado. Nós vamos inclusive atualizar o nosso site…
Devo ter permanecido mais de meio minuto calado, incrédulo, olhando para baixo. Por fim agradeci, dei meia-volta e rumei para o estacionamento. Antes de entrar no carro olhei com atenção ao redor, temendo ver a figura sinistra do gigante ruivo. Enfim entrei no carro e rumei para a casa, olhando com atenção para o retrovisor sempre que possível.
Será que realmente o Acre não existia?
* * *
Quando o despertador tocou, percebi que eu adormecera ao lado de um volume de enciclopédia, com o abajur aceso. Devo dizer que era o volume 1 da enciclopédia.
Tomei uma ducha rápida, vesti-me, engoli meio pão com manteiga, e pronto: a caminho do trabalho. Seria uma manhã mais ‘administrativa’, sem aulas para dar. Nada me indicava que minha vida estava prestes a mudar.
Quando cheguei à sala de reuniões de meu departamento, a vi de costas. Não sabia quem ela era, mas eu certamente nunca vira formas tão harmoniosas por ali. Quando ela voltou-se, nossos olhos se encontraram. Os dela eram de um verde profundo, bastante puro, bastante raro, e brilhavam como se quisessem sinalizar o código da felicidade. Sorrimos os dois, imediata e espontaneamente. Seus cabelos loiros, que chegavam até os ombros, combinavam totalmente com os olhos.
A coordenadora do curso aproximou-se para apresentar-nos. Fiquei sabendo que tinha, diante de mim, Bruna, a nova professora de Estatística.
– E onde tu trabalhava antes? – perguntei-lhe, após ter identificado em sua fala um ligeiro sotaque cuja origem eu não conseguia precisar ao certo.
– Eu dava aulas no Mato Grosso – ela disse, sempre sorrindo.
– Que longe! E a que devemos a felicidade da tua vinda pra cá?
Eu estava bebendo água em um copo descartável quando ela explicou:
– Isso que eu era de mais longe ainda. Eu nasci no Acre, e fui…
Ela parou de falar porque o copo escapou de meus dedos e foi ao chão, não sem antes molhar-me o peito. Vendo a expressão de desconcerto que deveria estar estampada em mim, ela deixou de lado o acidente em si, e perguntou assustada:
– O que aconteceu?
– Do Acre? – eu questionei. – Não, não pode ser.
Ela voltou a sorrir, ainda que timidamente agora.
– Ué, por que não? Porque eu sou loira? Tá achando que só tem índio no Acre, é? Bom, meu pai era gaúcho, e…
– Não é isso – eu disse. – É que o Acre… não existe!
Para encurtar a história, digo que Patty, a aeromoça, foi imediatamente descartada, tanto que só fui lembrar-me dela duas semanas depois, no processo de apagar certos nomes da agenda do celular. Por incrível que pareça, em se tratando de adultos, Bruna e eu começamos a namorar oficialmente logo na semana seguinte. Antes, ainda naquele primeiro dia, contei-lhe sobre as minhas peripécias em busca da existência do Acre, e enquanto me ouvia ela gargalhava da maneira tão gostosa que me é agora tão familiar; e disse que não conseguiria ser de grande ajuda na dissipação de minhas desconfianças, porque só vivera no Estado até os dois anos de idade, e não tinha parentes e nem amigos naquela terra para a qual jamais regressara.
Em novembro escrevi para Jonas, para contar-lhe as boas novas. Disse que finalmente poderíamos ir em dois casais para a praia, mas que teria que ser um pouco depois do ano-novo, já que nessa data um outro compromisso teria que ser cumprido.
Bruna topou com entusiasmo a aventura. Seis noites, incluindo a virada do ano, em Rio Branco. Compramos as passagens através da internet, sem grandes dificuldades e encontrando preços dentro da normalidade. Nossa primeira viagem juntos, em pouco mais de dois meses de namoro, e – eis a questão – para o Acre!
Justamente agora, enquanto escrevo estas linhas; na véspera de Natal, e há quatro dias do sonho realizado, recebo uma mensagem curta de Bruna, dizendo: “Preciso falar contigo sobre a viagem. Chega um pouco mais cedo se puder”. Esta noite iremos para o sítio de meus pais, na outra margem do rio. Sim, sairei mais cedo para buscá-la, e digo que estarei indo sem muito medo de encontrar notícias totalmente ruins sobre a ida ao Acre.
Afinal, seria demais.
T.B.
2010/10/6-7
October 3, 2010 - Posted by tbolivar - 1 Comment
Segunda-feira passada voltei de uma viagem de oito dias ao ‘sul do sul’: Bagé, Aceguá (lado Brasileiro e Uruguaio) e, depois, a boa e nunca velha Porto Alegre. Sobre o todo dessa jornada eu falarei no post seguinte; o assunto terá que ser aberto, necessariamente, com a narrativa dos fatos envolvendo o motivo que me levou até lá: um novo concurso. Unipampa, campus Bagé.
Fiz a viagem não tão sossegado assim, pois o número de concorrentes era alto (50 para duas vagas), e o esquema da prova era aquele ao qual eu havia jurado nunca mais me submeter: uma redação – tal como o de Goiás, que me dera nota 7 em ‘correção gramatical’ sobre um texto com sequer uma vírgula fora do lugar. A falta de informações específicas no edital (uma prova do caráter amador que governaria todo o processo) fez com que somente alguns dias antes da prova eu ficasse a par disso (tendo que ir atrás da informação), e decidi viajar de qualquer forma.
Caminhando rumo ao local da prova, na manhã marcada, vi uma papelaria/copiadora que estava acabando de erguer as portas, e decidi, ‘por si acaso’, entrar ali e fazer uma cópia do meu memorial. Se eu não tivesse feito isso, já teria sido barrado antes mesmo de receber as folhas de prova: apesar de o edital não mencionar nada a esse respeito, o memorial teria, sim, que ser entregue antes da feitura da prova. Vi uma candidata ser barrada exatamente por esse problema.
Pois bem; na sala, encontrei uma antiga colega de IEL como uma das três corretoras (que havia entrado em substituição de última hora). Cumprimentei-a discretamente com a cabeça, e ela sorriu para mim com igual discrição. O número de candidatos faltosos era imenso: 58% de ausências! Jamais havia visto qualquer coisa próxima disso nos cinco outros concursos que prestara. Os 21 presentes receberam, então, a informação de que o número de vagas havia pulado para 4, com possibilidade até de haver uma quinta! Quatro ou cinco candidatos por vaga?! Me vi dentro. Por toda a minha vivência nesse tipo de jogo, eu sabia que somente um mal súbito ou um acidente me impediria de passar. Foi nesse clima de mistura de felicidade óbvia com angústia (por saber que meus dias no sítio se resumiriam, dali para frente, a visitas muito espaçadas) que vi o ponto da prova ser sorteado: ‘Semântica do Português’. Ótimo, eu tinha um esquema muito bom para esse tema, do qual eu já havia tratado muito em minhas aulas. A prova durou toda a manhã, e à tarde todos passamos pelo (a meu ver ridículo) processo de ‘leitura pública da prova’, de cuja utilidade prática jamais conseguiram me convencer muito bem. De qualquer forma, ter acompanhado a leitura da prova de alguns dos outros candidatos foi algo decisivo para que eu pudesse entender o todo desse concurso.
À noite (apenas um par de horas depois), voltamos todos para a publicação dos resultados. Isso mesmo: já, escassas horas depois.
Deixo o leitor com o texto abaixo, escrito na manhã seguinte, e que, dirigindo-se às corretoras da prova, explica quase tudo. Se o bom leitor tiver paciência,voltaremos a nos encontrar depois dessa leitura, para mais uns parágrafos.
Prezadas(os) membras(os) da comissão julgadora:
Escrevi o texto abaixo com a intenção de apresentá-lo como um ‘recurso’ esta manhã; porém, como na noite anterior, esgotado física, mental e intelectualmente, fui dormir sem a intenção de entrar com recurso; e como esta manhã me levantei muito tarde, e só então decidi escrever, chego a este momento (10h34) sem ainda ter saído de meu hotel em Bagé.
Tenho consciência, portanto, de que o texto abaixo, pelo avançado da hora, poderá não mais ser aceito como ‘recurso’; portanto, anulo-o como tal. No entanto, peço sua leitura assim que for possível: acredito que, pelo menos, ele poderá servir para questionamentos quanto à elaboração de concursos futuros.
Ressalto (se não ficar claro com a leitura do texto) que minhas críticas não se dirigem, de maneira alguma, à pessoa das professoras integrantes da banca avaliadora, mas sim (com o perdão do clichê) ao sistema do processo.
Thiago.
——
RECURSO
Meu nome é Thiago ________, participante do corrente concurso para docentes do curso de Letras-Português da Unipampa/Bagé, e através deste documento dou entrada em recurso, referente à avaliação efetuada pela comissão sobre minha prova escrita, no dia de ontem, e peço revisão de sua nota.
Ao receber a notícia, na noite passada, de que não havia conseguido a pontuação necessária para seguir no processo seletivo, meu primeiro pensamento foi no sentido da desistência. Embora eu não concordasse, de forma alguma, com o resultado, a análise de todas as notas em conjunto, em um contexto em que se sabe o que os outros candidatos escreveram, fez com que eu percebesse que, além de pedir a retificação de minha própria nota, eu seria forçado – se quisesse aquilo que entendo como ‘justiça plena’ – a questionar as notas dos concorrentes. Esse foi um dos pensamentos que mais me desanimaram, fazendo-me enxergar que, qualquer que fosse o esforço de minha parte aqui, o mesmo se revelaria um trabalho grande e praticamente inútil. Questionei-me: por que, então, desgastar-se dessa maneira? Decidi, de qualquer forma, escrever este texto – com o intuito de, pelo menos, retificar a situação ao máximo possível, e provocar uma reflexão benéfica, entre os membros da comissão, sobre a maneira de avaliar dentro do presente processo.
O CONTEXTO
No início da prova escrita, na manhã de ontem, surpreendi-me ao ver todos os candidatos copiando, avidamente, trechos de livros em suas folhas (de rascunho?). Eu não sabia que a prova teria essa possibilidade, e é difícil concordar com a mesma: revisar bibliografia e anotações, quem sabe; mas, utilizar a hora inicial para fazer cópias? Não entendo o porquê, o sentido desse traço – tão diferente dos outros concursos para docente dos quais participei e fui aprovado. Por que, então, não deixar que os candidatos tivessem os livros abertos durante toda a realização da prova? Ou que xerocassem um número limitado de páginas para uso? Qual seria a diferença? A não ser que o critério ‘velocidade de produção de cópia manuscrita’ seja parte das habilidades requeridas… Mas, enfim, se eu me alongar aqui estarei me afastando dos pontos principais do questionamento.
O que ocorre é que, na grande maioria dos casos, os textos finais dos candidatos se resumiram praticamente a isso: cópias. Organização das ideias de outros. O esquema de tais textos pode ser resumido da seguinte forma:
| Abertura (contendo, por exemplo, duas linhas com um pensamento a respeito do tema);
Recorte e cópia de definições de outros autores – reunidas, elas mesmas, em um trabalho de outro autor.
Trecho: “Podemos entender ainda, segundo Fulano…” (ou algo parecido);
Recorte e cópia de longas linhas com definições de Fulano.
Trecho: “Isso está de acordo com Saussure (1916) – o pai da Linguística [!!!] – que…” (ou algo parecido);
Recorte e cópia de longas linhas com definições do ‘Pai da Linguística’. |
Candidatos que produziram textos seguindo esse esquema foram aprovados, e isso me faz pensar: qual o perfil de professor que está sendo buscado pela Unipampa? Busca-se o pensamento crítico? Um desses candidatos aprovados não sabia pronunciar os nomes da Lakoff e de Frège (este último pronunciado como ‘Frejé’ ['Frejat'?]), o que, se não constitui prova inequívoca, ao menos dá fortes indícios de pouca ou nenhuma familiaridade com os trabalhos dos autores – tão exaustivamente, e com tanta propriedade, citados na prova.
Piores ainda são casos que se aproximam perigosamente daquilo que só poderia ser caracterizado como apropriação intelectual das ideias de outros. Praticamente meras cópias, sem sequer indicá-las como citações – quando muito, com exemplos ligeiramente modificados. Entre outras, a prova lida por último pareceu ter esse tipo de ‘apoio’. Deixo, como documento anexo, uma cópia das páginas 16, 17 e 18 do ‘Manual de Semântica’, da professora Márcia Cançado, e peço comparação deste com o texto da prova mencionada, para ilustrar um desses casos. A candidata não foi aprovada, mas ficou com nota praticamente igual à minha, o que permite duas colocações um tanto perturbadoras: 1) Qualquer indivíduo (formado ou não em Letras) munido de um texto apropriado para copiar, poderia ser aprovado – ou quase – na prova escrita em questão; 2) Se de fato, no caso mencionado, a associação com o texto de Márcia Cançado procede, essa professora da UFMG sairia do processo como ‘quase aprovada’ na primeira etapa.
Não pretendo questionar, aqui, o trabalho dos avaliadores: considero-o bom, dentro das possibilidades. O problema, justamente, é que as possibilidades oferecidas pelo esquema são bastante ruins: como detectar (por exemplo) plágios em uma correção que se faz em minutos?
MEU TEXTO
Conforme já mencionei, foi com surpresa que vi como a maioria (ou todos) dos candidatos usou sua hora inicial de consulta para copiar textos. Eu não tinha o que copiar, porque levei simplesmente uma folha com anotações minhas – esquemas a serem seguidos, para cada um dos pontos dentro do sorteio. Cheguei a desenvolver um pequeno texto inicial, mas, como a folha que utilizei para tal não pode ficar à minha vista [!], tive que recomeçar do zero, e assim o fiz: um texto meu, que demonstra minha capacidade de discorrer sobre o tema sorteado. Centrei-me em uma questão dentro desse tema (em vez de fazer um texto introdutório abrangente e raso, ‘feijão-com-arroz’) justamente por achar que tal abordagem poderia demonstrar a profundidade de meus conhecimentos.
Um dos critérios de avaliação foi a ‘capacidade de autoria’. Se não obtive a nota máxima aqui, gostaria de saber a razão disso. Aliás: se obtive nota menor que a dos outros candidatos, tendo em vista tudo o que foi colocado anteriormente, gostaria de saber o porquê. Fui capaz de montar meu texto com exemplos retirados do meu dia-a-dia, trabalhando com a capacidade de improviso fortalecida por experiência (de prática de aulas e de observações do mundo com olhar de linguista). Isso vale menos do que a organização de palavras alheias?
Outro critério foi, se não me engano, a capacidade de expressão em linguagem científica/acadêmica. Houve falhas, nesse sentido, em meu texto? Onde estão?
Se, nesses critérios mencionados, acredito que minha nota possa – e deva – ser próxima da máxima (10?), o que teria puxado minha nota final tão para baixo, a ponto de eu ter conseguido 6.5, 5.5 e 7.0 ? Fui conscientemente avaliado como ‘abaixo do esperado’ na nota final de duas das três avaliadoras, tendo ficado no limite mínimo na nota da terceira. Talvez eu não tenha o perfil do docente buscado pela Unipampa, e, se for realmente o caso, isso me desanima profundamente a prosseguir, ainda que este recurso tenha como efeito final elevar minha nota em um mero ponto – aprovando-me, mas deixando-me atrás de tantos outros candidatos que, apesar de minhas criticas a seus textos e procedimentos, talvez estejam mais de acordo com o perfil. Em minha prova didática eu ofereceria um esquema original, objetivando a reflexão dos alunos, e talvez outros esquemas, com longas citações definidoras, me deixariam para trás mais uma vez…
De qualquer forma, com ou sem efeito, sinto que devo apresentar este texto.
Thiago ____________
Bagé, RS, 22 de Setembro de 2010
O texto acima foi entregue, em três vias, nas mãos das corretoras, após uma heroica caminhada de quilômetros entre o meu hotel e os cafundós para os quais haviam transferido a segunda bateria de provas. Entreguei, despedi-me da minha colega que me deu 5.5 (que naquela noite me telefonou, e, é claro, continuará sendo amiga apesar do contexto ruim no qual nos encontramos), e voltei sem o sonho, e com o alívio covarde de não ter que deixar as coisas boas da minha terra.
No texto eu poderia ter dito, também, que praticamente ninguém seguiu à risca o tema ‘Semântica do Português‘. Quer dizer, papagaiaram apenas sobre as linhas gerais da ciência, sem trazê-la minimamente para o nosso contexto de língua e sociedade – porque isso envolveria internalização e raciocínio original.
Não vou dizer que todos os candidatos eram ruins. Vi dois ou três, acho, que fizeram provas realmente ótimas, dignas de um professor de faculdade pública. No entanto, se forem mesmo ‘quatro ou cinco vagas’, a Unipampa terá problemas. Sim, haverá gente pouco preparada para o cargo entre os selecionados, e antevejo algumas situações constrangedoras ali – a não ser que se implante um trabalho ‘a jato’ que opere milagres durante o verão.
Foi meu sexto concurso, formando um histórico tragicômico:
CEFET/SP: aprovado em 3° lugar entre mais de 60 candidatos, sem sequer ter mestrado ainda. Chamado informalmente algum tempo depois, e ‘desconversado’ em seguida;
IFET/RS: aprovado em 4° lugar geral. Chamado para a nomeação e ‘canalhizado’ no ato da entrega da papelada. A resolver-se na Justiça;
UFFS: reprovado. Prova muito mal elaborada, mas, pelo menos, foi igual para todo mundo, envolvendo questões objetivas. Um concurso justo;
UFV: aprovado em 3° lugar, os dois primeiros tendo sido chamados. Pelo fato de não haver entregado certos documentos, tirei de mim mesmo as frações de pontos que me teriam deixado em segundo;
UEG: reprovado por quem fingiu ter lido minha prova e sorteou a nota;
E, por fim, o da presente história, da UNIPAMPA.
Saí de lá decidido a não mais fazer concursos por um bom tempo (o que já não sei se cumprirei tão radicalmente). Pensei em me dedicar mais a minha vida aqui (tão boa), em melhorar o que está ruim, em construir, investir… Pensei que, bem ou mal, estou feliz no paralelo 23: se minha faculdade se mantiver firme, e se as coisas realmente melhorarem ali dentro, a vontade de sair da região se minimizará bastante.
Hoje, é claro, estou sentindo saudades do pampa – o pampa que me tiraram das mãos. Aqui no sítio, de bombachas uruguaias e tomando mate na umidade intensa da primavera, fico pensando se algum dia pertencerei, de fato, àquela vida.
September 18, 2010 - Posted by tbolivar - Comments Off
Lá vou eu, mais uma vez, para um concurso. Quando eu acordar, cedo pela manhã, estarei deixando o sítio, meus pais, as saracuras, os ciprestes etc., para uma semana e um dia abaixo do paralelo 31. Aqui está um tempo muito bom de primavera, 15°C agora à noite, com vento bastante alto. Lá vai estar ainda melhor (i.e., mais frio).
Como vou voltar? Por favor, rezem por mim, para que eu volte bem e cheio de esperanças firmes e bem fundamentadas para o futuro.
September 5, 2010 - Posted by tbolivar - 2 Comments
We have finally had our first spring day – which, as the reader must know, if she has followed my last few posts, has not come up after an icy winter, but after a torrid, dry summer in August.
But let us not speak about the past, nor worry about the future of this area, threatened by the project to expand the nearby airport. Let us live the moment, nothing but the moment, and thus hold the key to happiness – if but for a couple of hours. Let us concentrate on this holy day and its energies.
The last rain fell, if I am not mistaken, on the 14th of July. Some rain had been forecasted for around this day, which did not turn out true; but the polar air, nonetheless, did change our old conditions: the temperature has cooled down a lot, and this southern air has brought some humidity to the previous, desert-like conditions.
Spring is all over the countryside, permeating the living environment and connecting all beings in a powerful light green network. Love is truly in the air: ask the blue kites (Ictinea plumbea), which have just arrived from the north, and were caught by my privileged eyes in the very act of coupling – just like two turtledoves nearby. The male kite was seen, afterwards, bravely pushing a couple of eagles (carcarás) away from his territory.
Towards the latter part of this afternoon the temperature was below 19°C / 66°F, and, as I was watering the swamp cypress seedlings which were planted last spring, I decided to sit on a wooden bench beneath the pines, and admire and interact with the marvels of the day. I sat down with my chimarrão and some blueberry biscuits and the blessings started to shower on me, like the tiny drops of water falling from the yellow trumpet trees (Tabebuia spp.) I had immediately above me, in full blossom. The atmosphere was clear, renewed. The small woodlands and gardens were teeming with life and resounding with the songs of birds, specially the thrush (Saturninus mimus). The sun was declining towards the west, whose horizon was already blazing, when four herons (Syrigma sibilatrix), perhaps five, were seen flying around the northern part of the farm and the nearby creek. A cool breeze was blowing all the time, and I started to inhale that healing air more deeply; to fill up my lungs and my cells and all my being – body, soul and spirit – with it. That light green energy was then in me. That eternal energy, our Mother’s holy breath.
Light started to fade at the natural – slow – pace, and I let my senses experience it, this gradual and beneficial change, of which we are always deprived in artificial environments, with their electric lamps always ready to destroy the process as soon as ‘we need them’.
* * *
Há algumas noites, chegamos à faculdade para trabalhar, e fomos surpreendidos por uma visão totalmente nova. O imenso terreno desocupado (de, talvez, 100 x 100 metros), vizinho de alguns blocos de salas-de-aula, mudara radicalmente.
Lembro-me dos meus planos para esse terreno, assim que fiquei sabendo que pertencia à faculdade, e que pretendiam fazer ‘algo’ ali. Pensei em propor à administração a ideia do ‘bosque de outono’: uma dúzia de nogueiras pecan, outra de plátanos, outra de ciprestes-do-pântano, e mais algumas amoreiras e hovênias, e, em anos propícios, teríamos uma praça ‘única’ nos meses outonais, que atrairia muitos visitantes para ver o espetáculo. Poderia ser, também (e mais ‘nativamente’ correto), o local do ‘Pinhal do Espírito Santo’ – velha ideia minha, que consiste em conseguir um terreno para erguer um bosque de araucárias em Espírito Santo do Pinhal. Enfim, eu me proporia a participar ativamente da transformação do terreno, não só conseguindo as mudas como orientando o plantio daquelas que eu próprio não fosse plantar. Mas fiquei inativo, apenas no mundo das ideias; e, seja como for, é óbvio que uma ideia assim seria recebida com um sorriso querendo fingir amizade, e um “vamos estudar a proposta, quem sabe?”; e, assim que eu virasse as costas, viriam as gargahadas de escárnio e as cabeças balançando.
O local virou, em alguns pontos, um gramado; e, em outros, um piso cimentado para a prática, talvez, de skatismo ou patinação. Até aí tudo bem. O que mais chamou a atenção de todos foi a quantidade assombrosa de postes de iluminação. Para cada árvore do meu sonho se viam, fincados naquela terra, pelo menos dois postes, desses com luminárias redondas, que irradiam luz sem limites. Quando chegamos, então, e vimos pela primeira vez aquele carnaval de luzes intensas, ficamos surpresos: as pessoas do ônibus (meus colegas professores) sorriram e admiraram ‘a beleza’ que tinham diante dos olhos. E eu? Fiquei com a alma afundada, é claro. Fechei os olhos e lamentei.
Enquanto subíamos no ônibus novamente, para voltarmos a Campinas finda a jornada, ouvi os “que lindo” e os “que gracinha que ficou” e não me contive. Com legítima raiva, disse bem alto: “Eu detestei! Achei uma desgraça!”. Fui censurado com bom humor: “Credo! Por quê? Quer ser do contra?”. Me dei conta então que, mesmo entre professores universitários – doutores, muitos deles – não se consegue sequer imaginar que males pode trazer uma mudança como aquela.
Expliquei, com a raiva e com o tom de quem sabia de antemão que seria incompreendido. “Nossa, mas aquela escuridão?”. Não duvido que, para meus colegas, o local iluminado como o dia era sinônimo de vida: pessoas brincando, barulho (já havia ali um carro-de-baiano com porta-malas aberto e esgoto auditivo escapando pelas caixas-de-som)… Que louco iria querer de volta aquela ‘escuridão medonha’? Um colega novo, que eu vira pela primeira vez naquela mesma noite, ergueu-se com a máxima do heroi magnânimo, que pensa nos que estão em apuros: “Imagina se passa por ali uma menina sozinha, naquela escuridão?”. Ah, pronto! Como é que eu não pensava na pobre mocinha indefesa, pôxa vida? Estivéssemos em um auditório, essa fala brilhante receberia longos aplausos dos sensos-comuns, e eu, o rude insensível, teria que descer da bancada sob vaias.
O assunto não durou mais que um minuto entre o ônibus todo, mas se alastrou por mais dois ou três entre eu e duas amigas mais próximas, que começaram a me dar razão em vários pontos. A visão que eu trago é inovadora para muita gente que jamais teve um contato próximo com a Natureza, e, dentre esses, são muito poucos (não importando estudo – e até mesmo estudo formal de princípios ecológicos) os de coração realmente bom e aberto, como essas minhas duas amigas, que são capazes de entender os sofrimentos e a perturbação gerais que o tal bem-estar (?) dos humanos provoca em todas as outras espécies.
As pessoas são cômodas ao extremo. Assombrosamente egoístas. Muitas podem ligar a TV e ficar sabendo da derrubada de florestas, e dizer: “ai, que dó”; podem falar com crianças sobre como não devemos matar “os bichinhos”, e até mesmo comprar papel reciclado e colocar o nome em petições, mas… seriam totalmente incapazes de alterar um milímetro de suas próprias rotinas em benefício à Terra. Com relação à ecologia, têm um entendimento totalmente falso, porque entra meramente nas palavras e apenas margeia o intelecto, sem sequer trincar a hipocrisia. Somente quando esse entendimento entrar no coração é que ele será realizado nas ações das pessoas; mas, me parece, no caso da maioria das famílias estamos ainda a muitas gerações desse quadro.
Não há mais estrelas em nossos céus para que a mocinha indefesa possa caminhar de madrugada sem medo de ser abordada pelos vampiros estupradores que estão à espreita em cada moita sombria – sendo que, deixada no ritmo natural, a menina acostumaria seus olhos à luz do céu noturno (com ou sem lua) e enxergaria tanto quanto os tais monstros que as querem vitimar. E se essas amaldiçoadas luzes artificiais fossem sinônimo de segurança, não seria São Paulo a cidade mais segura do mundo?
Perdemos o ritmo natural, a poesia, o descanso da noite – e a esse inferno arrastamos conosco, com um egoísmo dos mais vis, todo o reino vegetal e animal deste planeta no qual somos aliens; no qual lutamos (tal como o legítimo Satanás das Escrituras) contra toda a Criação.
September 1, 2010 - Posted by tbolivar - Comments Off
Entramos em Setembro tendo deixado para trás um meio do ano sem inverno. 2010 fica, assim, registrado como um desses ‘anos ruins’ com relação à ausência de repouso invernal nesta região.
Todas as minhas esperanças de ver chegar uma mínima anual decente foram frustradas, uma a uma com o passar das frentes frias; e, a não ser que algo milagroso aconteça agora em Setembro, ficaremos com a vergonhosa marca de 6.5°C, em comparação aos 5.7°C de 2008 e aos 4.3°C de 2009. Essa média de +5.5°C / 42°F (englobando um espaço demasiadamente, curto, inválido para estatísticas de clima, é claro), não nos colocaria sequer na Zona 10, entre as Tree Hardiness Zones. Tivemos um outono razoável, e Junho ficou na média; Julho foi de veranico e, de repente, a estação mudou. Não é sequer possível dizer que passamos do outono para a primavera: pulamos direto para um verão seco e de noites mais frescas, isso sim.
Em anos bons, de bom frio e estações definidas, faço planos para mim mesno nesta terra, e a defendo com mais vigor de qualquer ataque; agora, anos como este me fazem perder a confiança e começar a olhar para outros horizontes, onde mudas de plátanos possam lançar raízes sem medo, e uma criança possa aprender o método e a ordem através do que observa no jardim.
August 15, 2010 - Posted by tbolivar - Comments Off
WINTER?
When I came back from Rio, in late July, I noticed one of our swam-cypress seedlings had small green dots in one of its thin branches: the leaves were popping, in a period that would correspond to late January in the northern hemisphere!
This freak of nature is to be seen mostly everywhere since the latter part of the month: the hovenias’ leaves have also been popping; many flowers are blooming, and, during the few rains we had last month, one frog here and another one there could be heard! Some pecans were still keeping part of their glorious autumn leaves while other trees were already showing the freshest green of spring. It is as if we have but three seasons: from autumn we simply jump to spring, skipping winter.
There were lows in the high 40′s in July, but those were not good enough, there having been a long, a very long period of highs far above the acceptable, reaching the mid-80′s. The variation from day to night was intense, with a desert-like width, reaching, sometimes, 36°. Now, if this ‘Indian summer’ had lasted but a week, no great damage in the natural cycle would be felt; but, after a whole month under such conditions, it has been permanently broken for the season, no matter the amount of cold that some days of August or September can still bring up. We are currently seeing and feeling the passage of polar air here, today’s high not having passed the marker of 63°F, under a most gorgeous blue sky; but, so far, the year’s lowest is still those modest 44°F recorded a couple of times in June.
Ironically, the season has been a good one in the three States south of here: intense frosts there, and heavy snowfalls in the higher areas, with a foot and a half of snow having been recorded (last week or the week before) in a certain SC city; and I think it snowed again down south last evening/night. The polar fronts will simply not reach us (well, with the exception of today), as if a devilish breath were setting up a barrier just a couple hundred miles south of here. Let us see if tonight the poor record will be broken…
BIRDS
Some noteworthy observations, regarding our birds:
Rails: I have recently made a discovery, concerning our rails. That is, there is a third one roaming around! I first got the hint when I listened to a different ‘accent’ in singing, and that this different-accented singing was a solo, lasting for no longer than five seconds or so. Then, a few days ago, I had the positive confirmation when I saw a stray rail climbing up the branches of a cypress to roost, having seen our two friends (the couple) about twenty yards away, just a couple of seconds before. That same evening the lone rail started its lonely, short singing, sadly lacking accompaniment; and, moments later, the regular couple presented their well-known but never-tiring music. We have also been witnessing what seem to be instances of chasing, as if the couple were pushing the poor, lonely kin, away from their territory.
Last sunset one of them (the lonely one, we believe, as I had seen the couple near the pool nearly the same time) was seen by my mother feeding on seeds which had been placed on the floor for Arara (our red macaw), just three feet away from this latter bird, which didn’t seem to care at all. Not only that, but Arara produced the well-known white matter via regurgitation, apparently to herself, as is often the case, but laid it on the floor and hastened away to attack one of the dogs, which she could see via an opening on the door; and the rail, the next second, simply picked up the white matter and walked away! We will be investigating more closely the relations between Arara and the rail.
One last thing about these friends: curiously enough, I have noticed an unaltered pattern concerning these birds’ deployment (let’s call it so) for roosting. Namely, the fastest-paced singer in the couple would always, with no exception whatsoever in perhaps a hundred observations so far, roost north of the slowest-paced one. They can each roost in different trees around the pool every night, but the fastest one will always be north of the other – be it three feet, be it thirty.
Carcarás: A couple of carcarás, and sometimes two couples, have lately been seen flying over the farm and surrounding area. They are probably mating and nesting, and, as they frequently land on the top of our tall pines west of the house (as well as in a tall gumtree off the farm), we are hoping they will choose one of those trees as their baby’s cradle. They are heard and seen even long after dusk, flying from one giant tree to another.
Redthroat: An unknown species has been spotted on the farm. I saw it the first time a couple of weeks ago, in the thicket near the garage, feeding on the small black fruits of a vine. It is quite big for a passerine, black or dark brown, with a conspicuous red throat. Were it not for the fact that it has no long neck, it would resemble a very small jacu/guan. I have managed to take a couple of acceptable shots of it with my powerful semi-professional camera (18x zoom), and hope it will be identified soon.
Maritacas: This is the time of the year when they are most conspicuous, gathering in very large bands (I have counted 40 today, in one instance, but there was an occasion, in the past, when I counted over 50), and making a lot of noise, as every Psittacidae. They can be regarded as ‘the life of the farmlands’.
Pigeon: A very large pigeon was found hurt, two days ago, by my parents. Apparently, a victim of an unsuccessful attack by a roadside hawk or a carcará (mum said both were to be seen around, when she found him). He attempted to attack my parents as they were trying to pick him up, probably as a result of a serious trauma in the head. They managed to put him in a box, hoping he would recover by himself, even though my dad said he believed in no recovery. In fact, we found him dead this afternoon. Were it not for the extremely hard labour of removing the feathers, I would roast and have him eaten by my family as well as myself, to give some use to his death.
Hummingbird: There are deaths and there are births. Yesterday, with the whole family on the farm (my brother included), we found a baby-hummingbird (of the green species) appearing to be hanging from his nest above one of our doors. A closer look revealed that such was indeed the case: one of his legs got caught by the entanglement of spider webs, straw and other little things, that make up the nest itself, probably in an attempt to fly out. We noticed that the parents were caring for him, while thus hanging, a palm beneath the nest. We cut him loose and placed him back on it, only to find him (a tiny thing, barely the size of a spider) on the hard floor – a fall of over twelve feet. It was perfectly sound, of course, given his null weight, and we put him back above again, keeping an eye on the place. Darkness fell, and I would listen to him peeping from his nest. Was he cold? Was it the first time without the mother or father hummingbird above him? We decided to take him down and shelter him for the night, which we did. It was not early in the morning when we put him outside again, in a different place, lower down, but near the original nest. To our most glad surprise, we saw how he was cared for and fed by the parent(s) throughout the day. Darkness has fallen again, as I write, and, as it is 52°F and dropping quickly, I put him indoors again, in a dark, sheltered place, and will try to get up early tomorrow, to put him outside to the parent(s).
METEORITES?
I did not see any above the city, nor did my parents on the farm. They had announced a rain of meteorites, which would better be seen in the northern hemisphere, but, nevertheless, would also be visible here, “even in the over-illuminated [and otherwise polluted] city of São Paulo”. Well, I kept an eye to the sky during the period between 00.30 and 02.30, the first hours of Friday, and saw absolutely nothing.
Perhaps a little would be seen, were it not for the ‘curse of the lights’. I ABSOLUTELY HATE these man-made lights which disturb the natural cycles of day and night! They are wanted by the imbecile populace as a blessing, and as such are delivered by the government. They think these lights provide more security… Perhaps I am surrounded by generations of people who have never properly managed and got over their infantile fears of darkness… And, thus, we cannot have real nights anymore – not even in the country, if a city is nearby, its detestable glow seen above the horizon and robbing us from multitudes of stars.
Part of a dirt road leading to the farm is going to be paved, as we have heard. This is OK, and would be really harmless if done in the most ecological ways, so as to render it permeable to rains; but the problem is, posts with lamps tend to follow pavement. And these, specially in this country, are never made in a way to minimise the scape of light to the sides and even above the lamps. And we pay for it. I do not want it any more than I would want poison poured down my throat, and they will charge me for that poison!
August 1, 2010 - Posted by tbolivar - 784 Comments
Three texts in English — in orange.
Três textos em Português — em verde.
BIRTHDAY
Last Monday, on the 26th, I turned 32 years old. It was a day full of expectations, a decisive day for my future, regarding the biggest problem of my adult life so far (namely, my evil aunts), and it ended up in a temporary defeat. My spirit was, therefore, a bit low during the first half of the day; but then, towards the late afternoon, it was lifted again by promises of new hopes nearby – the possibility to have it all solved, for good, within maybe another month.
When I turned 31, I was at this posh restaurant in Cambuí, Campinas, with a girlfriend and four of my closest friends from work. This time I simply did not leave the farm: I had my parents with me, a few phonecalls and messages, and no cake. To some people, this would be, perhaps, a disheartening experience; but for me, even though I would appreciate the company of many friends on the occasion, it was not a big deal: I am perfectly all right with myself.
Lonely as it was, it would not hurt to make something different and special; so, as I had no candles burning, I built a good fire outside and enjoyed its mystique. As the pine wood burnt, I thought about my past and my future, and, of course, about my present conditions. Who am I nowadays? Am I on the right path? Should I take a new one? Life has helped me with these questions through the last few days’ experiences.
[scroll down for part 2]
ANIVERSÁRIO
Segunda passada, dia 26, completei 32 anos de idade. Foi um dia cheio de expectativas, decisivo para o meu futuro, com relação ao maior problema de minha vida adulta até o momento (ou seja, minhas tias maléficas), e terminou em uma derrota temporária. Fiquei, com isso, um pouco para baixo durante a primeira metade do dia; mas então, lá pelo fim da tarde, curei-me com promessas de novas esperanças próximas – a possibilidade de ter tudo resolvido, em definitivo, talvez dentro de um mês mais.
Quando completei 31, eu estava em um restaurante chique no Cambuí, em Campinas, com uma namorada e quatro de meus amigos mais próximos no trabalho. Desta vez eu simplesmente não saí do sítio: tive meus pais comigo, alguns telefonemas e mensagens, e nenhum bolo. Para algumas pessoas, essa seria, talvez, uma experiência muito triste; mas para mim, embora eu apreciasse a companhia de vários amigos para a ocasião, não foi problema: fico perfeitamente bem comigo mesmo.
Solitário, sim, mas não seria má ideia fazer algo diferente e especial; assim, já que não teria velas acesas, construí uma boa fogueira e curti sua mística. Enquanto o pinho queimava, pensei sobre meu passado e meu futuro, e, é claro, sobre minha situação presente. Quem sou, hoje em dia? Estou no caminho certo? Deveria tomar um novo curso? A vida me ajudou com essas questões, através das experiências dos últimos dias.
[2a. parte abaixo]
RIO DE JANEIRO
On the 27th I took a plane to Rio de Janeiro. I was going there for three nights, with the object of finally meeting my long lost relatives again, and to relax a bit a see new things. For the first time ever in my adult life, I was travelling with a relative: my mother was going with me, to the city where she was born and raised (most of the time).
Now, one of the first things people will learn about me, is that I am not exactly in love with Rio. Tropical Brazil is very hostile to São Paulo, seeing us as upside-down Brazilians, and it is only natural that most of us will see them as upside-down Southerners, but it is not only that: the city of Rio itself is a place I have never wanted to go; and if I was there in 2002[3?], and again in 2007 (just to mention my visits as an adult; there were several others as a child), it was because my relatives were there.
I thought I would see the extremely dirty streets ‘of always’, littered with the sleeping bodies of beggars, with rampant crime and dangers of all kinds lying in ambush in every corner, all that in the worst possible environment concerning temperature and peoples’ manners. Yes, but what I saw this time was something completely different. None of the aforementioned preconceived ideas was there in the material Rio.
I left the city, yesterday, with many thanks in my thoughts. The streets were clean, not overcrowded, and felt very safe, both downtown and in the South Side. So was their underground. The weather was very agreeable, not too different from ours in this no-winter-year. Parts of the city would even remind me of Porto Alegre, and today, after so many nice surprises, I am able to see Rio de Janeiro in a positive light. There was just one problem there, just one thing that was unchanged through the years: the lack of beautiful women.
It may be hard to say such a thing in face of a city which gave me the knowledge of Marcia – a girl with stunning looks – but she is an exception. The rule for 95%-99% of the girls I saw is a different one. “But… isn’t that the home of the Girl From Ipanema?”. I think it used to be, in the past. Nowadays, the sad truth is, it is extremely hard to find beauty there. Here, if you take a walk around the block, you are sure to find at least a handful of girls whom you would find beautiful; and there are blondes, redheads, brunettes, Asians… all tastes are fulfilled. There, on the other hand, they look about all the same, and there is some suggestion of a bored bad mood in their looks; a lack of vivacity and light in their eyes, which are almost always poorly moulded. It was only in some shops in Ipanema that I got to see some girls who, if not extremely beautiful, were at least ‘attractive’; and the best place of all was the Farm shop in Ipanema, on Nossa Senhora da Paz Square.
Walking around with my mother, and knowing the city ‘again’, through her eyes, was a dear experience; one to remember. On the 28th we walked around Laranjeiras, then took the tube downtown, had lunch at the Colombo building (a very beautiful place – for the ones who can afford it: it costed $132 for a simple lunch with a juice for two), did some shopping here and there, took the tube again to the South Side, saw our old apartment in Copacabana (where I sometimes would stay, during my holidays as a schoolboy), went further south to Ipanema, saw the shop we own at a mall there, did some more shopping, and went back to my uncle’s apartment, where a family gathering would take place.
On the 29th we got up rather early to visit the Botanic Garden. It was quite an experience, walking down lanes surrounded by exotic trees and even getting to see a monkey here and there (no jacus/guans, however, even though they abound there). We bought a Dalgas Fritsch collection (books + CD) at their shop, and went back home. The rest of the afternoon and evening I spent it with Marcia, while Mum walk around her old Laranjeiras again. Early the next morning we would leave the city.
The family gathering, on the 28th, gave me some fuel for thought, regarding the reflections I did on my birthday…
My cousin Clarisse (three years older than me), whom I had not seen in at least 20 years, is married and has a daughter about four years old. Her brother Rodrigo (one year older than me), a cousin with whom I have always had more contact (he was there during my two previous visits as an adult), is also married, and has a newborn son. They were all there: cousins, spouses, children. Great stable jobs, steady paths etc. My own situation, compared to theirs, was strikingly different. It would trouble me sometimes, to think that I, too, should be married by now, and perhaps ready to give my parents a grandchild (a gift my father would not welcome, by the way); on the other hand, I am happy with the career I have chosen. Of course, I need a State institution to call my own (due to the instability and rather low wages of the private institutions here), but I simply can not bear the thought of burying my soul little by little, from dawn to dusk, by some office’s desk.
I said goodbye to my excellent uncle and aunt yesterday morning, and promised to go back soon – and I am sure I will keep my word.
[scroll down for the 3rd and last part]
RIO DE JANEIRO
No dia 27 peguei um avião para o Rio de Janeiro. Estava indo por três noites, com o objetivo de finalmente encontrar meus parentes, depois de tanto tempo, e de relaxar um pouco e ver novidades. Pela primeira vez em toda a minha vida adulta, eu estava viajando com um parente: minha mãe ,e acompanhava, para a cidade em que nascera, e na qual fora criada (a maior parte do tempo).
Pois bem; uma das primeiras coisas que as pessoas acabam sabendo sobre mim é que não sou exatamente um apaixonado pelo Rio. O Brasil Tropical é bastante hostil para com São Paulo, e se pare eles somos “o avesso do avesso do avesso”, é natural que muitos de nós assim os enxerguemos; mas não se trata apenas disso: a cidade do Rio, em si, é um lugar para o qual jamais quis ir. Se estive lá em 2002[3?], e novamente em 2007 (mencionando apenas minhas visitas como adulto; houve várias outras nos períodos anteriores), é porque meus parentes estavam lá.
Pensei que veria as ruas extremamente sujas ‘de sempre’, coalhadas com os corpos adormecidos de mendigos, com crime a todo vapor e perigos de todas as sortes à espreita em cada esquina, isso tudo no pior ambiente possível, considerando temperatura e educação das pessoas. Sim, mas o que vi desta vez foi algo completamente diferente. Nenhuma das ideias preconcebidas mencionadas estava lá, no Rio material.
Deixei a cidade, ontem, com muitos agradecimentos em minha mente. As ruas estavam limpas, sem grandes multidões, e davam a impressão de muita segurança, tanto no Centro como na Zona Sul. O metrô estava igualmente bom. O tempo estava muito agradável, não muito diferente do nosso, neste ano sem inverno. Partes da cidade chegaram até a me lembrar Porto Alegre, e hoje, após tantas surpresas boas, consigo ver o Rio de Janeiro de maneira positiva. Há apenas um problema lá; apenas uma coisa que se manteve inalterada ao longo dos anos: a ausência de mulheres bonitas.
Pode ser difícil dizer isso sobre uma cidade que me trouxe o conhecimento de Márcia – uma moça de beleza impressionante – mas ela é uma exceção. A regra, para 95% ou 99% das gurias que vi, é outra. “Mas… não é essa a cidade da Garota de Ipanema?”. Acho que já foi, no passado. Hoje em dia, a triste verdade é que é extremamente difícil encontrar beleza lá. Aqui, com uma volta ao redor do quarteirão, é certo que pelo menos quatro ou cinco gurias consideradas bonitas serão vistas; e há loiras, ruivas, morenas, orientais… todos os gostos serão contemplados. Lá, diferentemente, todas são mais ou menos parecidas, e há uma sugestão de mal-humor entediado em sua expressão; uma falta de vivacidade e de luz em seus olhos, que são quase sempre mal emoldurados. Foi somente em algumas lojas de Ipanema que cheguei a ver algumas gurias que, se não extremamente belas, eram pelo menos ‘atraentes’; e o melhor de todos os lugares foi a loja Farm de Ipanema, em frente à praça Nossa Senhora da Paz.
Andar por ali com minha mãe, e conhecer a cidade de novo, através de seus olhos e explicações, foi uma experiência de que me lembrarei com carinho. No dia 28, andamos por Laranjeiras, pegamos o metrô para o centro, almoçamos na Colombo (um prédio muito bonito – para os que podem pagar: um almoço simples, com suco, para dois, custou R$132), fizemos compras aqui e ali, pegamos o metrô para a Zona Sul, vimos nosso antigo apartamento em Copacabana (onde eu às vezes ficava, durante minhas férias na escola), seguimos para Ipanema, vimos a loja que temos, em um pequeno shopping, e voltamos para o apartamento de meus tios, no qual um encontro de família teria lugar.
No dia 29 acordamos relativamente cedo, para visitar o Jardim Botânico. Foi uma grande experiência andar pelas aleias cercadas por árvores exóticas e poder ver até mesmo alguns micos (não vimos jacus, no entanto, apesar de eles serem abundantes ali). Compramos uma coleção de Dalgas Fritsch (livros + CD) na loja, e voltamos para a casa. O resto da tarde e começo da noite eu passei com Márcia, enquanto que minha mãe foi andar por sua velha Laranjeiras novamente. Na manhã seguinte, cedinho, deixaríamos a cidade.
O encontro de família, no dia 28, me deu combustível para pensar, com relação às reflexões que fiz em meu aniversário…
Minha prima Clarisse (três anos mais velha que eu), a quem eu não via há pelo menos 20 anos, está casada e tem uma filha de cerca de quatro anos. Seu irmão Rodrigo (um ano mais velho que eu), um primo com quem sempre tive mais contato (ele estava lá durante minhas duas visitas anteriores da vida adulta), também é casado, e tem um filho recém-nascido. Estavam todos lá: primos, esposos, crianças. Empregos ótimos e estáveis, caminhos seguros etc. Minha própria situação, comparada à deles, era bastante diferente. Me perturbava, às vezes, pensar que eu também deveria estar casado por agora, e talvez pronto para dar a meus pais um neto (um presente que não seria muito bem-vindo por meu pai, aliás); por outro lado, estou feliz com a carreira que escolhi. É claro, preciso ainda estar em uma instituição pública (devido à instabilidade e salários mais baixos das instituições privadas aqui), mas simplesmente não consigo pensar em enterrar minha alma, pouco a pouco, de sol a sol, junto a uma mesa de escritório.
Disse adeus a meus excelentes tios na manhã de ontem, e prometi voltar logo – e tenho certeza que cumprirei minha palavra.
[ver a 3a e última parte abaixo]
IEL’S CLASS OF 2000 MEETING
(Note: here we establish a class’s year considering our fresh, not our senior and last year).
And today, finally, another gathering of dear souls which has caused quite a few impressions in me. Eight of my old classmates from IEL’s 2000 (evening) – i.e., slightly less than a third of the total – showed up at the lunch meeting, which was being talked about in an exchange of messages since nearly ten days ago. We were eleven adults and three little children in total at the restaurant, counting on spouses and offspring; and we had last seen each other (well, most of us) two years ago, during a wedding.
It was extremely nice to see the faces of those great friends, all with an extremely high cultural level, a great sense of humour, an impeccable nature… great friends with whom I have spent some of the dearest, best years of my life: those were enlightening years of intense growth and full formation, even though I was already an adult then.
Among the ones who were present, only three, I think, were single (myself included); two were already parents. As for me… Well, I was the one sitting at the head of the table, where I could look at everybody’s face; I was the one throwing occasional glances at girls some tables away, and dreaming of a Battle of Gettysburg won by the Confederates, or of my future conditions. When back to present times, I would gossip with my friends and listen/tell stories.
At the occasion, I initiated talks about the possibility of making regular meetings every month or every second month. Hope it works.
ENCONTRO DA TURMA DE 2000 DO IEL
E hoje, finalmente, outra reunião de almas queridas, que causou muitas impressões em mim. Oito dos meus velhos colegas de IEL, da turma de 2000 (noturna) — ou seja, pouco menos de um terço do total — apareceram para o almoço combinado, do qual se havia começado a falar, em trocas de mensagens, há cerca de dez dias. No restaurante, éramos onze adultos e três crianças pequenas no total, contando esposos e filhos; e a maioria de nós se havia visto, pela última vez, havia dois anos, em um casamento.
Foi muito bom ver os rostos daqueles grandes amigos, todos de um nível cultural extremamente elevado, um ótimo senso de humor, uma índole impecável… grandes amigos com os quais passei alguns dos melhores e mais queridos anos de minha vida: aqueles foram anos iluminados de crescimento intenso e plena formação, ainda que eu já fosse um adulto então.
Entre os presentes, apenas três, me parece, estavam solteiros (contando comigo); dois já eram pais. Quanto a mim… Bom, eu era aquele sentado na ponta da mesa, de onde eu podia olhar para o rosto de todos; eu era aquele lançando olhares ocasionais às gurias de outras mesas, e sonhando com uma Batalha de Gettysburg vencida pelos Confederados, ou com minhas condições futuras. Quando de volta ao presente, eu fofocava com meus amigos e ouvia/contava histórias.
Na ocasião, iniciei conversas sobre a possibilidade de fazermos reuniões regulares todo mês ou a cada dois meses. Espero que funcione.
July 11, 2010 - Posted by tbolivar - 2 Comments
Explicação: O post começou a ser escrito quando o Brasil ainda estava vivo no torneio, mas só o retomei nesta data.
As ruas, construções, veículos e pessoas estão cheios de verde e amarelo. Bandeiras brasileiras tremulam na brisa fria de junho, e o furor patriótico é onipresente: Brasil, Brasil, Brasil!
O estrangeiro desavisado se admira. O que estará acontecendo? Venceu-se uma guerra, ou talvez se esteja relembrando uma importante batalha histórica? É a data nacional? O país ganhou um Nobel, mandou um homem (ou mulher) à Lua?… É então que, de repente, a verdade se revela: é a tal Copa do Mundo de futebol. Sim, é isso mesmo: o patriotismo deste “país que não é nação” está diretamente ligado a um bando de praticantes de um esporte corrupto e monótono. E o pior é que, se o estrangeiro disser algo que leve toda essa gente a suspeitar que seu pensamento íntimo seja “pôxa, que macaquice”, não faltará gente disposta a linchá-lo.
Com a febre da Copa (e antes fosse só durante a mesma!), se destaca fortemente outra coisa vergonhosa: a evidência de que o brasileiro é, na média, um povo complexado, invejoso, de caráter embaçado e sombrio. Estou falando da tal rivalidade (dita ‘saudável’) contra os argentinos.
Pode-se argumentar que seja algo apenas ligado ao futebol, como um Palmeiras x Corinthians, por exemplo. Como eu disse acima: antes fosse… O Brasil demonstra precisar de um inimigo, de alguém para direcionar frustrações, invejas e macumbas, senão não consegue caminhar. Nada de olhar para a frente: é necessário parar a marcha, olhar para o lado e desejar a desgraça do vizinho. Aí sim. O brasileiro pode ser comparado àquele mau-caráter doente da vizinhança, que quando ganha algum prêmio no trabalho, em vez de contabilizar o próprio lucro, procura saber primeiro o quão atrás ficou o chefe-de-família do outro lado da cerca.
[Pausa para a piada!... Deus um dia apareceu para Zé Brasileiro e lhe disse: 'Meu filho, podes pedir o que quiseres, absolutamente qualquer coisa, qualquer riqueza, poder, maravilha, que eu te darei. Só há uma condição: tudo o que receberes, teu colega Che Argentino receberá em dobro'. Zé Brasileiro então pediu: 'Fura-me um olho'.]
Suspeito muito que a caracterização da Argentina como O Inimigo tenha surgido durante a ditadura tropical; afinal, incomodava muito ter ao lado um país que, com um quarto da nossa população, tinha um PIB ultrapassando a metade do nosso; um país que, com menos gente e menor território, conseguia equilibrar a balança científica e militarmente; um país de gente alfabetizada e culta. A coisa deve ter surgido durante aquele período, sim, e ganhou no futebol a desculpa perfeita para consolidar a situação desejada.
Em se tratando de um povo mau-caráter como este, o fato de existir um Judas a ser malhado chegou como um presente. Ao longo de minha infância, lembro-me bem de como a Globo buscava, incansavelmente, marcar a Argentina como “o grande rival”, “tudo menos eles” etc. Tanto fizeram – através do futebol – que conseguiram. E hoje já virou moda, em todos os recantos além-Globo, ver tudo o que é argentino como “coisa do mal”.
Se o povo argentino é arrogante por natureza, como costuma-se dizer (em várias viagens e com muitos contatos eu nunca testemunhei isso; aliás, viaje à Argentina e veja como te tratam!), imagine-se como será multiplicada essa suposta arrogância assim que se derem conta do grosso recalque do brasileiro! “Vejam só, os brasileiros nos colocam como seus principais inimigos! Nos temem, buscam a todo momento lutar contra tudo o que é argentino, querem ver nosso mal! Nós os incomodamos, fazemos com que percam o sono criando contra nós slogans, comerciais, rezas”.
No encarte da Folha de S. Paulo que continha a tabela da copa, os jogos da Argentina tinham sempre ao lado observações como: ‘A Grande Secada’; ‘A Secada Dois, a Missão’, etc. Um comercial de cerveja, em uma projeção bastante Freudiana, mostrava algo inexistente na realidade: caracterizava os argentinos como tendo pesadelos com o Brasil, não suportando ver nossos símbolos de futebol, nossa torcida. Quando o Brasil foi derrotado pela Holanda e saiu da Copa, os meios de comunicação locais procuraram, procuraram alguma manifestação Argentina a respeito. Procuraram, procuraram com muito afinco, até caírem exaustos, e por fim encontraram, satisfeitos… Uma faixa. É, uma faixa. Uma faixa do tamanho de uma toalha, em um estádio, dando adeus. Wow, Glória! Estamos justificados!
Em um nível mais pessoal, agora: Há alguns dias, o caseiro de uma fazenda, na qual eu estava entrando para tirar algumas fotos, começou a puxar conversa comigo sobre a Copa. Haveria jogo da Argentina no dia, e perguntei para quem ele iria torcer. Para o outro time, “é claro”. “Jamais” torceria para a Argentina, “de jeito nenhum!”. Lancei o meu “mas por quê?”, que foi recebido com imensa estranheza. Bem, nunca há uma resposta. É divertido perceber como os brasileiros gaguejam e não conseguem produzir uma única razão para esse comportamento assombroso. Alguns falam da famosa Água Batizada (ver Google), mas esse foi um episódio pontual que ocorreu muito depois de a tal ‘rivalidade’ ter sido instalada entre os brasileiros. Não há razões. As pessoas não conseguem explicar por que querem ver a morte da Argentina.
Eu não me sinto nem um pouco inclinado a fazer parte desse lodo. Parece que, hoje em dia, é necessário pedir em juízo o meu direito de não ter os argentinos como inimigos, apesar de ter nascido aqui. Eu me reservo esse direito.
É necessário perceber que o brasileiro não torce a favor de seu time: torce contra os outros. Socialmente, na sala de reuniões do mundo, é um adolescente grosseiro, muito folgado, que de longe causava admiração por ser alegre e festeiro, mas que de perto termina por fazer todo mundo ter nojo. Escrever sobre o comportamento do brasileiro em eventos maiores, como os Jogos Olímpicos, no entanto, demandaria um post exclusivo.
O brasileiro não é apenas um mau perdedor: é um mau vencedor.
PS. Um exemplo da inveja geral deste povo me foi trazido pelo amigo Luis Guilherme, ao ver meu ‘pré-post’ sobre este tema: conta ele que, no Rio de Janeiro, um carro conseguiu se dar bem em um engarrafamento, passando e se livrando do problema, sem incomodar absolutamente ninguém ao redor. Os motoristas que viram essa libertação debaixo de seus narizes buzinaram indignados com a sorte alheia.
PPS. Minha amiga M. me brindou com um contraste perfeito: as notícias da chegada da seleção brasileira ao Brasil (com escolta policial e saídas pelos fundos) frente às notícias da chegada da seleção argentina à Argentina (com festa, agradecimentos e muita solidariedade expressada ao técnico e aos jogadores).
PPPS. Por fim, minha amiga Maísa demonstrou o que seria, de fato, ‘rivalidade saudável’ – e muito inteligente. Retrucou minha afirmação de que os brasileiros eram invejosos, dizendo: “Os argentinos é que são os invejosos! O Brasil saiu da Copa, eles não aguentaram e saíram logo em seguida!”.
June 19, 2010 - Posted by tbolivar - 21 Comments
IEL, por volta de 2003. Estou tomando meu chimarrão no lugar conhecido como ‘a Arcádia’, e eis que aparece um conhecido, colega de instituto, paraense de uma turma veterana. Ele se senta à minha frente, pedindo para matear comigo. Conversamos, enquanto eu lhe passo o amargo. Ele esvazia a cuia, eu a encho novamente e começo a tomar meu turno do mate. Nisso, o colega começa a tossir como louco e escarra no chão, sem cerimônia. “Ah, essa gripe!” ele reclama. Fico bestificado, com a bomba na boca, sem reação. Não consigo acreditar que alguém possa agir daquela forma.
Naquela ocasião eu não peguei a doença. Minha contagem de anos e anos sem pegar uma doença de verdade seria quebrada apenas agora; semana passada, para ser mais exato.
Rumo ao trabalho. Combino de ir de carro com uma colega, que levaria ainda outras pessoas. Às vezes acabamos indo de carro e pagando gasolina e pedágio, em vez de irmos com o fretado (totalmente gratuito), já que são ocasiões nas quais saímos muitíssimo mais cedo que o horário do ônibus. Eis então que na quinta-feira subo no carro de minha colega pernambucana e ela começa a avançar pelas ruas de Campinas. O interior do veículo está quente, desagradável, há um ar não muito bom ali dentro. Como o carro não é meu, não baixo as janelas, até que, de repente, após alguns quilômetros rodados, minha colega tosse e reclama da gripe. Meu coração afunda! Percebo que estou em uma cápsula de vírus, uma verdadeira armadilha — e, pior, meu instinto faz com que eu me sinta vulnerável. Baixei uma frestinha da janela, mas, como eu viria a saber depois, ‘já era’. Peguei a doença. Depois de anos e anos, sofri com a gripe, passei a miséria na cama, tive febre e tudo mais…
Lembrei-me de um outro episódio, talvez de 2000. Eu havia convidado uma família americana para passar a tarde no sítio, e como resposta obtive um ‘não’, já que um dos membros da família estava gripado. “Para nós não é educado ir até sua casa com alguém doente, e pode ser que outros de nós já estejam doentes também… Seria como levar vírus à sua casa”. Que atitude! Tão óbvia quanto excelente, mas, pelo que andei vendo, alguns brasileiros são incapazes de pensar assim. Os (auto)ditos “sociáveis e solícitos” brasileiros dão mostras de não terem qualquer senso de coletividade ou mesmo de civilidade quando se trata de cuidar da saúde do próximo… a não ser, é claro, que pensem que devam sociabilizar o vírus, para que todo mundo “se f… junto”. Igualdade, não é? “Onde já se viu ter gente saudável enquanto eu estou doente?”.
O brasileiro é egoísta, tosco e bruto como um homem-das-cavernas nesse quesito, e, pelo que eu vi, quanto mais ao norte menor a preocupação em evitar que o vizinho se contamine. Se alguém me der ouvidos aqui, peço, pelo bem de todos (incluindo você mesmo), que observe o seguinte:
* Se está doente, avise isso aos amigos que porventura estejam próximos a você. Haveria que se evitar um pouco o contato físico próximo, que é tão praticado pelos brasileiros. Se está tossindo e espirrando, tenha sempre um lenço para abafar a explosão de vírus, e, sendo possível, faça isso longe dos outros.
* Por que você iria trabalhar estando com uma doença contagiosa?? Para lamber botas, para se mostrar aos superiores? Se você está doente, falte. Às vezes é necessário até que o governo promova essa ‘lei’, para evitar uma legião de doentes no trabalho.
* Ninguém fica comovido (bom, eu não ficaria) se você vai a uma festa de aniversário (por exemplo) “mesmo doente”. Não te faz bem, e, sobretudo, não faz bem para os convidados e para o aniversariante. Dar três dias de cama, sofrimento e gastos não é dos melhores presentes que você pode oferecer. Fique em casa, vá depois. Se o sujeito não entender que você está fazendo um favor ao faltar por estar doente, esse sujeito está mais doente que você.
E agora, me deem licença, que ainda estou com uma tosse forte…