St. Patrick’s / Quando chega o outono?
Ontem fui celebrar o Dia de São Patrício no Cambuí, com uma amiga com quem tenho uma relação que pode ser caracterizada como ‘mística’ ou ‘serendipitous’, e com quem eu não falava há uns dois anos. Em uma noite cheia de grandes e felizes coincidências, com cartolas verdes, tin whistles e Guinness, reparamos como a noite estava relativamente fresca, com vento, e achamos aquilo ‘ideal’.
Este ano o outono de minha terra teve dois marcos iniciais, ambos aparecendo mais cedo que de costume: em fins de Fevereiro(!), entre os dias 26 e 28, o tempo esteve nublado, com muito vento e ocasional garoa, com tardes não superando os 19 ou 20 graus Celsius, e mínima absoluta de 17.8, com sensação térmica muito abaixo desses valores. Foi um contraste brusco o suficiente para sinalizar uma mudança com relação às condições prevalentes até então; mas foi entre o domingo e a segunda-feira passados (7-8 Março) que tivemos a confirmação da entrada do outono, quando o céu do sítio se limpou após a passagem de uma frente fria, e, como acontece com a maioria das casas Brasileiras, que não são termicamente isoladas, eu e minha então namorada nos sentimos mais confortáveis dormindo com um cobertor do que sem ele. O termômetro digital registrou a mínima de 15.0°C.
O outono chegou, assim, entre os últimos dias de Fevereiro e os oito primeiros de Março… Mas já estou vendo eventuais leitores tropicais coçando a cabeça frente a tal afirmação: “Ué, o outono não começa dia 21 de Março?”, vão dizer. E eu retruco, não conseguindo disfarçar toda a minha impaciência: “Não, gente! Esse é só o equinócio, que associaram ao início da estação! É uma data de calendário, uma convenção!”. Mas é justamente isso: para quem foi criado em lugares onde as estações não existem, elas não passam de datas no calendário. São coisas não-palpáveis, sem muito sentido, tal como se fossem festas imaginárias e alienígenas.
O outono começa… quando começa! Mais zen e mais verdadeiro impossível. Quem é do trópico (ou, em se tratando de citadinos ferrenhos, podemos até avançar uns 10° de latitude além do trópico) não consegue captar isso, mas ‘nós’ conseguimos. Cada estação tem seus sons, seus cheiros, seus animais, seus céus… O outono te dá um alô quando, de repente em uma temperatura mais fresca, você se dá conta de que a noite está silenciosa… Onde foram parar aqueles sapos do verão? E havia pássaros noturnos chamando as crias, entre tantos outros ruídos aos quais você já se havia acostumado, e de repente só se escutam os grilos, naquele friozinho diferente… Durante o dia, a brisa é outra, e faz farfalhar as folhas de um jeito que elas nunca conheceram desde seu nascimento. O céu está azul, e não se veem aquelas nuvens pesadas; além disso, você nota que o sol anda percorrendo ângulos mais baixos, e faz sombras e cores diferentes. Pois é: a estação mudou. Logo as andorinhas que nidificam em sua chaminé toda primavera vão se juntar em revoadas acrobáticas e te dar adeus, iniciando sua viagem até a Amazônia e o norte tropical. A estação mudou, e isso pode acontecer no início de Março, ou só no começo de Abril.
Depois que o outono bate, pode voltar a fazer muito calor (como aconteceu aqui). É o natural. É uma estação de grandes variações e mesmo de fortes contrastes entre manhãs e tardes, e às vezes pode parecer esquisito me ver declarando a presença dessa estação durante uma noite na qual o calor é tanto a ponto de dificultar o sono; mas que chegou, chegou: até as folhas de algumas Hovenias o estão comprovando, sutilmente ainda. Portanto, peço: deixem de ser normativistas (uma das pragas de ser Brasileiro) em mais este espaço da vida. Parem de seguir o falso (uma inscrição em uma folha de calendário) e passem a seguir o real: aquilo que, simplesmente, é.
TB
PS. Outra coisa curiosa que noto em pessoas do trópico é a incapacidade de pensar um lugar, climaticamente, utilizando o verbo ‘estar’. De início, só conseguem pensar em termos de ‘ser’: “Nossa, como a cidade tal é quente!”. Se visitam por uns dias durante o verão, vão achar que é assim sempre.
PPS. Este ano, curiosamente, as grandes mudanças nas condições têm coincidido com os últimos/primeiros dias de cada mês: Janeiro inteiro foi um inferno detestável e mofado de chuvas diárias, condições que só mudaram a partir do 1° de Fevereiro, quando entrou um verão bem mais seco. Esse mês foi fechado pela frente fria já mencionada, e então veio esta estação gloriosa.
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